Seios livres, leves e soltos: Afinal, pode topless no Carnaval

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Caranaval de BH – Fotos: Marcus Desimoni/Nitro/Uol

Época de muita pegação, azaração, muito beijo na boca… e muita passada de mão. Quem frequentou bailes de Carnaval (mesmo as matinês) no passado deve ter muita história para contar. Mas hoje a coisa mudou. As mulheres estão botando a boca no trombone, brigando por seus direitos em diversos movimentos feministas pelo mundo afora. E o Carnaval, festa onde o corpo feminino sempre teve as atenções voltadas a ele, não teria motivos para ficar de fora. Nos blocos de rua pelo Brasil, mulheres deixam seus seios gritarem pela liberdade. Sejam eles pequenos, grandes, firmes ou não. Bonitos ou feios? Quem os define? Aliás, elas igualmente querem se livrar do padrão de beleza imposto pela sociedade. “Nossa luta abrange várias demandas. Uma das motivações é o protagonismo feminino no cenário musical, onde não temos a mesma visibilidade que os homens”, diz Nara Torres, idealizadora da fanfarra Sagrada Profana, de Belo Horizonte, onde muitas mulheres saem com os seios à mostra. A ideia surgiu em 2015, no contexto da chamada Primavera das Mulheres, quando milhares saíram às ruas para dar um cala a boca no machismo. Campanhas como #primeiroassédio ampliaram a discussão sobre temas feministas. Musicista e professora, Nara explica que as mulheres do bloco buscam igualdade, respeito e lutam contra o assédio. “Não importa como a mulher está vestida, isso não é um convite [ao homem]. Meu corpo, minhas regras”, defende Nara, que rege 50 ritmistas e 25 sopristas. Entre musicistas, performers e amigos no apoio, a fanfarra chega a ter 90 pessoas. O cortejo de 2018, em Belo Horizonte, foi acompanhado por mil foliões.

Pode mostrar? A advogada criminalista Luíza Nagib Eluf explica que não existe uma lei que criminalize especificamente o topless. “A lei fala de ato obsceno. O topless das feministas é uma demarcação de direitos políticos e humanos da mulher. Está protegido pela Constituição. É um protesto contra a dominação masculina”, explica a especialista. Segundo a advogada, desde que não haja violência, tudo é permitido no Carnaval. “Acho lindíssimo esse tipo de protesto. Sobre o que seria um possível atentado ao pudor, Luíza explica: “Não há definição precisa para pudor. O atentado ao pudor é muito subjetivo e depende do momento histórico e político que estamos vivendo”, diz a doutora, mostrando apoio às causas feministas: “Somos donas do nosso corpo e não queremos que ditem nada. Nenhum homem pode exigir que uma mulher tire a roupa nem pode obrigá-la que coloque”.

Medo do assédio? Os blocos feministas até dão uma certa segurança à elas, mas inconvenientes acontecem. “No último cortejo, um amigo nosso, do apoio, viu dois homens comentando ‘olha que gostosa, que peitinho lindo…’ e fotografando as meninas. Na hora ele interveio, mas acontece. Infelizmente”, lamenta Nara. Para Sabrina Cabral, relações públicas que toca caixa no Sagrada Profana, o assédio vem acompanhando a vida da mulher não somente no período carnavalesco. “Tenho medo dele! Por isso a necessidade de desmistificar os mamilos. E eu me sinto segura dentro da fanfarra fazendo topless porque juntas somos mais e poderosas. É muito emocionante! Sensação de um grito de liberdade acompanhado a uma reflexão sobre a sociedade machista”, diz Sabrina. Dagmar Bedê, igualmente do Sagrada, cita uma frase do palhaço Marcio Libar: “‘É preciso coragem, uma vez que essa tem o mesmo tamanho do medo’. É isso. O medo tem de ser do tamanho da coragem. Nem maior nem menor. Está ali, batendo de frente”, diz a palhaça, artista e produtora cultural.

“Sensação de liberdade e poderio total”: O momento da música “Vaca Profana” (Caetano Veloso) acaba sendo um convite a quem além disso está vestida. “A cena casa com a música e com a ideia do bloco. É uma sensação de liberdade e poderio total. Tem quem faça topless o tempo todo. Faz quem quer e se quiser”, diz Dandara Pagu, criadora do Vaca Profana, nascido em Olinda no ano passado – neste ano o bloco estreou em São Paulo com 3 mil pessoas acompanhando o cortejo. “Em 2015 fiz uma máscara e uma fantasia com textura de vaca. O policial me parou porque eu estava mostrando os seios. Daí fiquei com isso na cabeça e em 2016 nasceu o bloco”, explica ela, que critica a exploração do corpo feminino: “A mulher não tem domínio sobre o seu corpo, que é uma das coisas mais vendidas nos comerciais. Até bem pouco tempo atrás, modelos apareciam seminuas em propagandas de cerveja, por exemplo. Mas são contra [a sociedade machista] quando ela quer mostrar seu corpo por vontade própria”, diz Dandara, que igualmente vê o topless como teste de aceitação. “O Carnaval sempre foi permissivo, mas além disso há muitas regras em cima das mulheres”, defende.

Imagem: Marcus Desimoni/Nitro/Uol

São só mamilos! As mulheres veem com bons olhos o topless desde que esteja dentro do contexto. Para Dagmar, os peitos desnudos vêm com uma força muito grande. “São só peitos. O homem fica sem camisa quando quer, mas a mulher não pode. Se tirar, é piranha. Por que o corpo da mulher tem de ser sempre objetificado, sexualizado? Por que se uma mulher mostra um pouco mais do seu corpo significa que ela quer alguma coisa [em um contexto sexual]?”, questiona a produtora cultural. São meus peitos. Não é feio, não é errado, não é sexual. É um corpo feminino no espaço. E um corpo feminino no espaço deveria ser nada. Com uma bateria de quase cem mulheres, o paulistano Pagu igualmente deixa as mulheres à vontade. A única regra é o repertório feminino. “A gente não discursa sobre isso [topless], mas a própria ação do bloco diz respeito à liberdade da mulher”, explica Mariana Bastos, uma das idealizadoras do projeto. “Tem quem faça topless, mas não consigo dizer quantas. O bloco não tem estímulo nem reprovação quanto a isso”, conclui Mariana. Para Dandara, o Carnaval [desfiles de escola de samba] sempre explorou muito a questão do corpo feminino. E continua explorando. “É uma grande ilusão ficar botando estrelinha no mamilo ou tapa-sexo”, critica. “Às vezes é só um minúsculo tapa-sexo. E vai me dizer que não está nu?”, questiona. Seios de fora, briga por direitos, manifestações dentro e fora do Carnaval… O feminismo é um processo para todos. “Não é simples. É uma construção e desconstrução ao mesmo tempo”, diz a mulher à frente do bloco Vaca Profana, aberto a quem quiser participar. “O protagonismo é nosso [das mulheres], mas o Carnaval é de todos”, garante.

Índia não usa roupa: Welly Gomes, empresária e dançarina de Cuiabá, fará sua estreia na Marquês de Sapucaí com os seios à mostra no abre-alas da Estácio de Sá. “Tudo depende da proposta. O convite me foi feito devido às minhas características físicas. Eu sabia que uma índia deveria sair com os seios de fora”, diz a moça, que desfila há 11 anos no Carnaval de Cuiabá (MT). Já na Unidos da Tijuca, Welly usará uma fantasia luxuosa, com muito brilho, cabeça e costeiro. Mesmo longe de blocos feministas, Welly compartilha algumas opiniões. “Cada um pode fazer com o seu corpo o que bem entender. E no Carnaval não tem essa de pode tudo. Não pode desrespeitar as pessoas, não pode prejudicar a escola e, principalmente, não pode aceitar o que não te faz feliz.” A presidente da Tom deixa claro que a prioridade é sempre a escola e o enredo que está sendo desenvolvido. “Mas é claro que tem pessoas, homens e mulheres, que cuidam do corpo o ano todo e, quando chega o Carnaval, querem mostrar um pouco a mais. Mas isso só acontece se couber dentro do contexto do desfile”, diz Luciana. Nara, do Sagrada Profana acha interessante levantar a questão do topless nos blocos e nos desfiles de Carnaval. “Qual a diferença? Penso que nos blocos ele [o topless] vem da intenção, da energia. Não dizem que a maldade está nos olhos de quem vê? No final é a mesma coisa”, finaliza a musicista. (Fonte: Boa Informação)

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