Coliseu do Sertão: Em cidade sem água potável, prefeito inaugura estádio de futebol

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a chegada ao município de Alto Salto, no interior do Ceará, o visitante distraído pode achar que está tendo uma miragem. Logo após o pórtico de entrada, um muro arredondado de 150 metros de extensão, adornado por 50 pilastras em arcos em linha dupla – marcas da arquitetura romana – dividem em dois andares a construção de 15 metros de altura e não deixam dúvida: o famoso Coliseu romano está no sertão. Ou melhor, uma cópia parcial do que foi o anfiteatro construído no período da Roma Antiga, na Itália. Ao passar pelos imponentes portões de ferro trançado, no entanto, a ideia é a mesma de uma cidade cenográfica. Por detrás, não há beleza e muito menos história. Apenas estruturas metálicas rudimentares sustentando uma pequena arquibancada. Ao custo de R$ 1.317.500 saídos dos cofres municipais, enfim ficou pronto o polêmico estádio batizado de Arena do Coliseu Mateus Aquino, sede do Alto Santo Esporte Clube. A inauguração foi no domingo 9, com um jogo que reuniu 950 espectadores – 5 mil a menos que sua capacidade. O nome do estádio é uma homenagem a um menino que faleceu vítima de câncer aos 5 anos, neto do ex-prefeito Adelmo Aquino, idealizador da obra que divide as opiniões. “Vemos como um marco para a cidade, que apareceu até na mídia internacional. Ficaremos conhecidos como a cidade do Coliseu, depois de Roma, é claro”, anima-se o morador Carlos André Lira. A dona de casa Francisca Sales acha que a propaganda saiu muito cara. “Foi um gasto desnecessário.” De fato, é um luxo para os padrões da cidade que se localiza em pleno sertão, com alguns bairros sem água encanada e sem rede de esgoto sanitário. O Ministério Público move ação contra a prefeitura e a Companhia de Água e Esgoto do Ceará (Cagece), que firmaram um convênio em 2000 para implementar as redes de saneamento e água potável em todo o município, mas até hoje nada fizeram. O paradoxo é ver o campo do Coliseu irrigado, mesmo em época de seca. Mais curioso ainda é saber que o gramado foi providenciado cinco anos antes da inauguração, contrariando as normas da Fifa, que orienta sua instalação por último. “É absurdo. Tem água e tudo para o estádio e nada para os moradores”, afirma a promotora de Justiça Natália Saraiva Colares, responsável pela ação. O ex-prefeito Adelmo Aquino, esteve presente na inauguração e defendeu sua criatura. “Cumprimos tudo o que estava combinado, foi uma obra relativamente barata.” De fato, não é uma exorbitância, mas também não pode ser considerada uma prioridade numa cidade carente de cuidados básicos. Aquino, que chegou a se candidatar a deputado estadual em 2014 pelo partido Solidariedade, mas teve a candidatura indeferida pelo Tribunal Regional Eleitoral por “abuso de poder” em 2012, é sócio benemérito do Alto Santo Esporte Clube, praticamente o dono do novo estádio. Os repasses federais que possibilitaram a construção do Coliseu foram ordenados por emendas à Lei Orçamentária em 2005, 2007 e 2008, todas assinadas pelo o ex-deputado federal Marcelo Teixeira, ex-PMDB. Teixeira teve a candidatura impugnada em 2010 por contas irregulares, sendo enquadrado na Lei Ficha Limpa. Agora, a cidade de 16.823 mil habitantes se pergunta se o projeto original será patrocinado ainda ou se o aspecto de arena romana ficará restrito à parede frontal. O plano previa um túnel ligando o campo aos vestiários e a instalação de 10 lojas sob as arquibancadas que, por sua vez, teriam capacidade para 20 mil pessoas (leia quadro). Quem dá uma resposta às dúvidas do povo é Marcio Jaime, o diretor de futebol do clube e também secretário Municipal de Esportes da cidade. “A ideia é chegar à capacidade de 20 mil e completar o muro para ficar igual ao Coliseu. Mas isso é coisa para daqui 20 ou 30 anos. Fica para o próximo dirigente”, diz.

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