Condição fetal grave associada ao zika é a ‘ponta do iceberg’, diz médico

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O diretor médico do Hospital Geral Roberto Santos, em Salvador, Antônio Raimundo Pinto de Almeida, afirmou em coletiva à imprensa na tarde desta sexta-feira (26), que os estudos produzidos na unidade que apontam a relação do zika com a hidropsia fetal e a hidranencefalia são apenas “a ponta do iceberg” dos problemas de saúde que ainda podem ser atestados com relação ao vírus.”O que eu quero dizer com a ponta do iceberg é que você tem uma coisa grave que está chamando a atenção, que é a microcefalia, e que ainda existem alterações outras que a gente precisa estudar”, afirma.Além das recentes identificações da hidropsia fetal (endema generalizado no corpo do bebê) e da hidranencefalia (líquido no lugar do cérebro), que foram divulgadas na revista “PLOS Neglected Tropical Diseases”, Almeida destaca que alguns bebês nascidos com o vírus não têm manifestado microcefalia, mas têm apresentado outras alterações no corpo.

“Tem bebê que tem lesão oftalmológica e não tem microcefalia. 25% dos nossos bebês não passaram no teste da orelinha [têm alterações auditivas]. Qual será a evolução desses casos”, aponta os desafios que o vírus tem colocado diante da ciência.Antes da identificação da hidropsia fetal e da hidranencefalia, também foram identificados em bebês com zika e estão em estudo: dilatações do sistema ventricular cerebral, acúmulo de líquido no cérebro, lesões destrutivas no cerebelo e alterações fixas do membros (artrogripose).

Manifestações do vírus

O médico Manoel Sarno, especialista em medicina fetal e professor da Universidade Federal da Bahia (UFBA), um dos autores do estudo que identificou a relação do vírus da zika com hidropsia fetal e hidranencefalia, conta que o Hospital Roberto Santos propôs à comunidade médica a terminologia “Síndrome da Zika Congênita”, justamente para dar conta de todas as manifestações do zika que vão além da microcefalia.A proposta foi reforçada, justamente, após a identificação de uma gestante do interior da Bahia, de 20 anos, que foi atendida na unidade, em janeiro deste ano. Durante a gravidez, o bebê cresceu normalmente até a 14ª semana. “Na 18ª semana, o colega que atendeu ela [no interior do estado] percebeu que o bebê parou de crescer”, conta. Encaminhada para Salvador, os médicos identificaram na 26ª semana os problemas de hidropsia fetal e hidranencefalia, manifestações que foram registradas pela primeira vez no mundo vinculadas ao vírus da zika.

“A gente tem quatro compartimentos: o tecido subcutâneo, que é embaixo da pele, tem a pleura, que é no pulmão, o pericárdio, que envolve o coração, e o peritônio, que é dentro da barriga. Dos quatro, tinha líquido em três. Só não tinha no coração”, conta Manoel Sarno sobre a manifestação de hidropsia fetal apresentada pelo bebê.Intrigou a comunidade médica o fato da mãe não ter apresentado sintomas da zika em nenhum momento da gravidez. “O que chama atenção é que a gestante não relatou histórico de doença febril ou manchas no corpo que pudessem sugerir a infecção por zika durante a gravidez, mas o vírus foi encontrado tanto no líquido aminiótico, como líquido que banha o cérebro (líquor), como na medula espinhal”, detalha.

Apesar da gravidade do quadro identificado no bebê, Sarno destaca que trata-se de um caso ainda único nos registros médicos de manifestações relacionadas ao vírus da zika. “É um quadro extremamente grave, ele é atípico, e isso não pode ser extrapolado para toda a população. O mais comum, relacionado com zika, é encontrar a microcefalia, dilatações do sistema ventricular cerebral, acúmulo de líquido no cérebro – mas não com esse grau de destruição [da hidropsia fetal e da hidranencefalia] – , e também lesões destrutivas atrás da cabeça, que tem um órgão chamado de cerebelo. Tem também as alterações fixas do membros, que chamamos de artrogripose, além das alterações no cérebro que é um indício muito forte de infecção congênita””, detalha.

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