Religiosos pedem criação de delegacia para crimes envolvendo intolerância

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A pedra que atingiu a menina Kailane Campos, de 11 anos, na última semana, na Vila da Penha, é uma das faces de um crime que acontece todos os dias, muitas vezes de forma silenciosa: a intolerância religiosa. Aos 8 anos, Leandra Gabrielly também já foi vítima do preconceito. Ano passado, no colégio, um colega arrebentou o terço que a menina usava. Disse que pertencia “ao diabo”. Alarmada, a mãe da criança, a cabeleireira Daniele Porto, conta que foi à escola cobrar providências sobre o caso. — A professora de ensino bíblico puxou o cordão que eu usava, dado por um cigano, e disse que eu pertencia ao diabo. Que eu não era de Deus. Fiquei em depressão, minha filha sofreu muito. A mãe do menino dizia que eu era satânica. Ela (Leandra) ficava sentada na última carteira, isolada dos outros alunos — conta Daniele, umbandista. Quem sofre com atos de intolerância esbarra na falta de empenho do estado para punir os crimes. Comerciante e presidente do Movimento Umbanda do Amanhã, Marco Xavier já fez 40 registros de ocorrência contra vizinhos do seu terreiro, em Santíssimo. A última agressão foi gravada em vídeo: o grupo passa e destrói as oferendas e velas. — Desde 2009, já quebraram vidros a pedradas, arrancaram luminárias, na hora da sessão, eles botam caixas de som na janela e som de exorcismo a todo volume. A polícia e o Ministério Público não fazem nada — reclama Marco Xavier. Para o interlocutor da Comissão de Combate a Intolerância Religiosa, Ivanir dos Santos, a solução para o caso seria a criação de uma delegacia especializada em crimes de racismo e intolerância religiosa. — Os dois crimes são interligados. A polícia tem que identificar os líderes religiosos que movem esses agressores. Não é para fomentar o ódio. Mas as lideranças têm que ser responsabilizadas por esses discursos. Eles satanizam em suas doutrinas — defende Ivanir. Para ele, a sociedade passou a enxergar e exigir a punição para crimes de intolerância religiosa: — Isso sempre aconteceu, mas passava despercebido. Hoje, os casos detonam clamor na opinião pública.

Casos sem punição – Mais de 40 casos de intolerância religiosa foram acompanhados por pesquisadores do Instituto de Estudos Comparados em Administração Institucional de Conflitos (Ineac), da Universidade Federal Fluminense. A conclusão é frustrante para os religiosos: nem a polícia nem o Judiciário ainda “enxergam” os atos de intolerância como um crime que atinge a identidade das religiões de matriz africana. — Na lógica policial, o conflito deve ser resolvido entre as pessoas. São tipificados como casos de menor potencial ofensivo, como insultos, e vão para os juizados. Quando não são “bicados”, o que acontece quando o policial convence a vítima a não registrar porque “nada vai acontecer”, são vistos como conflitos privados. São chamados de casos “de feijoada” ou “fubazada”, que remetem à cozinha — explica a pesquisadora Roberta Boniolo. A Comissão de Combate à Intolerância defende que os crimes de intolerância religiosa sejam enquadrados na Lei Caó, que prevê de dois a cinco anos de prisão. — De fato, os operadores de Direito acham que é “briga de vizinho”. Assim como a violência contra a mulher, que eles acreditam ter que ser resolvida na esfera doméstica. Enquanto as vítimas querem retratação quanto à sua identidade religiosa — explica o pesquisador do Ineac, Victor Torres de Mello Rangel.

Manifestação acontece hoje – Hoje, às 10h, no Largo do Bicão, milhares de religiosos vão fazer um protesto em desagravo contra a agressão sofrida por Kailane. Durante a semana, o prefeito Eduardo Paes, e o arcebispo do Rio, Dom Orani João Tempesta, se reuniram com a criança e seus familiares para prestar solidariedade. Vários atos de vandalismo essa semana despertaram a opinião pública para uma onda de violência religiosa. Em Uberaba, o túmulo do médium Chico Xavier foi atingido por vândalos. Na Lagoa, o dirigente do templo Casa do Mago, Ubirajara Pinheiro, denunciou que três homens com Bíblias nas mãos apedrejaram o local, quinta-feira. Uma estrela, uma imagem de Nossa Senhora da Aparecida e estátuas de Buda teriam sido atingidas, mas nenhuma foi danificada. — Também existem casos de terreiros depredados, mas os dirigentes não querem registrar de jeito nenhum. Têm medo por causa do tráfico — conta Ivanir dos Santos, que conta com o apoio de lideranças evangélicas na manifestação contra a intolerância. Kailane foi agredida por dois homens. O caso foi registrado na 38ª DP (Irajá).

Relembre casos – Na Bahia – Mãe Dede de Iansã, Mildreles Dias Ferreira, de 90 anos, faleceu na madrugada do dia 1º, após sofrer um infarto fulminante que teria como principal causa a perseguição sofrida ao longo de um ano, desde que uma igreja evangélica se instalou em frente ao terreiro Oyá Denã, na Bahia. Militantes contra a intolerância de todo o Brasil se uniram em manifestações em solidariedade. Depredação – O centro de umbanda A caminho da paz, na Rua Manoel Alves, no Cachambi, foi invadido e depredado em fevereiro deste ano.

Agressão – Em 2009, a Faetec emitiu nota pedindo desculpas ao aluno Felipe Pereira, então com 13 anos, por ter sido chamado de “filho do capeta” por uma professora. Invasão – Em junho de 2008, a depredação do Centro Espírita Cruz de Oxalá, no Catete, gerou revolta e mobilização entre segmentos religiosos. (Extra)

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