Tecnologia dos caixas eletrônicos é obsoleta, alerta delegado

7 anos Anterior written by

O delegado Jorge Figueiredo assumiu em março a missão de comandar o recém-criado Departamento de Repressão e Combate ao Crime Organizado (Draco). Nesta entrevista, ele fala sobre o trabalho realizado no combate aos crimes relacionados aos ataques a bancos, uma das vertentes do novo departamento. Ressalta que já foram realizadas 27 prisões de assaltantes de bancos e que o Draco irá atuar também no combate ao comércio ilegal de explosivos. Destaca, ainda, que os bancos precisam investir mais em segurança e monitoramento para inibir os bandidos.

Nas últimas semanas, a Bahia teve diversos casos de ataques a bancos, como em Conde, São Felipe e Valente. Como estão as investigações destes casos?
Sobre Conde, temos equipes investigando, que passaram mais de 24 horas em Sergipe com a polícia local. A gente prefere manter os detalhes de forma sigilosa, mas pode antecipar que a investigação já tem uma linha de andamento, a gente não está andando no escuro. Sobre São Felipe, Valente, Cabaçeiras do Paraguaçu, Sobradinho e Governador Mangabeira, as equipes do Draco estão coletando os dados iniciais, a fim de que adotemos as medidas cautelares pertinentes.

Desde a criação, já houve prisões feitas pelo Draco?
Nos primeiros 90 dias, o Draco prendeu 27 pessoas. Dessas, temos duas prisões que considero de excelência, de dois especialistas em explosões contratados por três quadrilhas responsáveis por 14 ocorrências na Bahia. Inclusive, das 27, quatro prisões foram efetuadas dentro do próprio sistema prisional, de pessoas que comandavam de lá as ações do lado externo.

Como estão sendo realizadas as investigações?
Estamos mantendo contato com a inteligência dos sete estados que fazem divisa com a Bahia, pois já temos conhecimento de todas as quadrilhas que atuam aqui. Metade delas, talvez mais, é formada por pessoas de outros estados. Tivemos prisões de pessoas que saíram de Santa Catarina para vir à Bahia. Fazemos também uma análise criminal no sentido de coletar o dado com qualidade, criar uma relação de contato com as polícias do estado.

Já há resultados desta análise criminal?
A gente já detectou que as quadrilhas de hoje já não são as mesmas de três, quatro anos atrás. Antes, um integrante de uma quadrilha era “fiel”. Hoje, pessoas são contratadas, o serviço é terceirizado. Temos pessoas contratadas para roubar carro e fornecer para a quadrilha, responsáveis por locar e transportar as armas, motorista para fuga, outras para fazer o levantamento logístico, ver se aquela cidade é favorável à rota de fuga. Não dizemos isso com base em achismo, mas nas prisões e interrogatórios.

Já há bandidos identificados além dos presos?
Nesses 90 dias, a gente já tem quase que dez assaltantes de bancos identificados e com mandados de prisão [expedidos]. Até o final de junho, serão 18. Queremos colocar a imagem dessas pessoas no aplicativo SIP [Sistema de Informação para Proteção à Pessoa] para que a população tenha conhecimento de quem são.

Quais são as dificuldades para prender esses indivíduos?
Como está terceirizado, ele participa de uma operação aqui e semana que vem está, por exemplo, lá em Tocantins participando de outra. Então, isso é uma das coisas que têm criado dificuldade.

Há ações para recuperar o dinheiro roubado?
A gente já está com investigações para pegar tudo de volta. Vamos ter operação em breve. Para lavar o dinheiro, eles colocam em nome de terceiros, compram fazendas, veículos, imóveis. Dentro do Draco foi criado um núcleo de investigação patrimonial para recuperar todo o numerário subtraído, confiscando patrimônio, veículos e bloqueando contas em nome de terceiros.

Há uma carência de efetivo policial no interior para o combate a estes crimes?
A Secretaria da Segurança Pública (SSP) está atenta a isso, já tem uma logística para suprir esta carência no nível de interior. A Polícia Civil tem um concurso que já está em fase de formação de delegados, investigadores e escrivães. Bom registrar que tivemos a sensibilidade do próprio governador [Rui Costa] porque ele, diante de uma provocação do delegado-geral [Bernardino Brito Filho] acatou a solicitação e vai chamar pessoas a mais do que previsto no edital.

O déficit de efetivo no interior é um atrativo para os bandidos?
Para eles pode parecer que é o êxito da operação, mas é o contrário. Para nós, é mais interessante também. Em cidades pequenas, os moradores percebem quem são as pessoas de fora, é mais fácil ter conhecimento das rotas de fuga e chegada para coleta de pistas do que em uma cidade maior.

Os bancos precisam investir mais em segurança e monitoramento?
A Suíça, em 2001, enfrentava a mesma realidade do Brasil. Acabou quando começaram a colocar os caixas com entinturamento e incineração. Aqui, vemos uma falta de investimento por parte das agências. É necessário um sistema de monitoramento de qualidade maior, com câmeras que suportem a explosão. Temos um problema com isso: ou a qualidade das imagens não é boa ou o sistema foi danificado, o que prejudica a investigação. A tecnologia dos terminais eletrônicos já está ultrapassada. Tanto é que a própria criminalidade já tem conhecimento daquela tecnologia do caixa, já sabe o local apropriado para colocar o explosivo para ele conseguir a subtração dos valores.

Este ano, já foram 108 casos na Bahia. Há mais quadrilhas especializadas aqui?
O que estamos vivendo na Bahia não no nível estadual. A Bahia tem 417 municípios, mas temos estados com 60. A Bahia tem foco grande não é porque aqui há mais quadrilhas, mas porque a nossa extensão territorial é maior, além de fazer fronteira com sete estados. Há quadrilhas que roubam em Goiás, por exemplo, passam de uma cidade para outra e vêm para cá.

Há investigações em relação ao comércio ilegal de explosivos, mesmo a fiscalização sendo de responsabilidade do Exército?
O Draco está trabalhando no sentido de reprimir o comércio ilegal de artefatos explosivos no estado, em parceria com a Coordenação de Produtos Controlados (Polícia Civil) e com o próprio Exército. Estamos comprando a briga porque não vamos ficar esperando.

A falta de fiscalização é um fator que contribui com o número de casos?
Sim. O governo federal tem que atentar para novas formas de combate. Juntamente com o Exército, estamos com planos de ação de não só combater o comércio, mas identificar pedreiras, obras clandestinas que estejam utilizando artefatos explosivos, carregamentos que transitem nas rodovias sem a devida legalidade do transporte. Em Valente, já foram apreendidas três toneladas este ano.

 

Comentários

Comentários

Artigos de Categorias:
Bahia · Polícia

Deixe o seu Comentário

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.